Fala pessoal, tudo bem?
Existe uma imagem pública muito forte de mulheres lindas, bem-sucedidas, maduras, grávidas que mexe com o nosso imaginário.
Em nosso novo episódio de Ciao Bela, Iza Dezon e Vânia Goy discutem como é importante lembrar que esse não é um assunto só do campo da medicina, pois ele mexe com medo, desejo, tempo, carreira, relacionamento, culpa, planejamento e esperança. Coisas que não são, exatamente, comparáveis ou controláveis, mas são vendidas dessa forma.
Sim, a medicina reprodutiva ampliou esse mercado e criou novos futuros. A FIV permitiu que milhões de pessoas tivessem filhos, o congelamento preserva possibilidades para pacientes oncológicas, mulheres sem parceiro e quem não se sente pronta para a maternidade. Só que possibilidade não é garantia.
E tem uma mudança demográfica enorme acontecendo porque as mulheres estão tendo filhos mais tarde, inclusive no Brasil. Um levantamento do IBGE, divulgado em 2021, mostrou que, em uma década, houve aumento de 63% nos nascimentos entre mulheres de 35 a 39 anos, enquanto a taxa de nascimentos entre mães de até 19 anos caiu 23%. Um comparativo da Fiocruz com base no DataSUS mostrou que bebês nascidos de mulheres a partir de 35 anos representavam 9,1% dos nascimentos em 2000 e passaram a 16,5% em 2020. Olha que esses dados nem são super atualizados!
Mas precisamos ressaltar que congelar óvulos não congela o tempo: o resultado depende da idade, da quantidade e qualidade dos óvulos, da resposta ao tratamento e de etapas que nenhuma publicidade controla. Mesmo assim, uma indústria bilionária vende “seguro de fertilidade” para uma geração treinada a prevenir rugas, burnout, envelhecimento e arrependimento.
E aí a incerteza vira culpa. Será que eu deveria ter feito exames antes, tomado outro suplemento, congelado aos 32? Empresas oferecem o procedimento como benefício, mas não são essas companhias que enfrentam jornadas exaustivas, licenças insuficientes e a falta de rede de apoio. A solução individual ocupa o lugar de um problema coletivo e, claro, caro demais para a maioria.
Talvez o caminho seja falar de fertilidade sem vender pânico e de tecnologia sem vender milagre. Congelar óvulos pode comprar uma margem de futuro. Só não pode virar mais uma forma sofisticada de dizer às mulheres: se vira.


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